O reconhecimento sobre a importância do evento e a continuidade de debates sobre o tema por representantes de todos os órgãos envolvidos foi destacado pelas autoridades das áreas jurídica e médica, além dos representantes de órgãos que atuam no trabalho de tratamento, prevenção e recuperação de dependentes químicos na noite do dia 13/12, durante a audiência pública que tratou sobre Crack e violência. O evento, ocorrido simultaneamente em Pelotas, no auditório da Subseção local da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na Seccional, em Porto Alegre, e nas demais 104 cidades gaúchas onde há Subseção, serviu para mostrar o quanto o assunto preocupa e faltam recursos para o desenvolvimento de um trabalho de qualidade no combate ao uso da droga que aumenta assustadoramente.
As discussões duraram aproximadamente três horas. O primeiro a falar foi o delegado da Polícia Federal, Alexandre Pauli, que enfatizou a ação da instituição muitas vezes sem ter seu trabalho visto, porque a meta é chegar na origem do produto. Em geral, o serviço da PF conta com o apoio da Polícia Civil. Pauli também informou que alguns policiais ainda realizam palestras preventivas quando solicitados e a principal tarefa do órgão é dificultar a chegada da droga ao traficante. O crack é uma droga de fácil disseminação, por isso, não podemos nos descuidar do combate. O ponto negativo para o traficante é que ela cria um tumulto ao seu redor, porque o usuário costuma ficar na volta do ponto querendo mais e isso chama a atenção, destacou.
O delegado disse também que as informações oriundas da comunidade, através do disque denúncia (3309-9000), em geral ajudam a PF a atingir seu alvo e frisou que todo o denunciante é sempre preservado. Na opinião dele, em geral o usuário de crack são pessoas sem perspectiva de vida, Independentemente de classe social, com a diferença que os mais pobre aparecem mais rápido por permanecerem nas ruas, enquanto os outros em geral conseguem se esconder com mais facilidade por terem mais condições financeiras.
A juíza da Vara de Execuções Criminais (VEC), Nilda Margarete Stanieski, há anos atuante nessa área, lembrou que além do crack a merla outra droga mais pesada que o crack – também já está chegando a Pelotas, por isso a luta contra as drogas precisa ser permanente. Acredito que seja possível fazer alguma coisa, mas o engajamento de todos é muito importante para isso, afirmou. A delegada regional, Carla Khun, denomina o crack como o mal do século e considerou o evento organizado pela Comissão de Direitos da Seccional da OAB fundamental para que se criem políticas públicas para tratarem do tema, apesar de reconhecer as dificuldades existentes em todos os campos. É importante o apoio de todos nessa questão, inclusive o político, afirmou ao apontar como outro ponto importante a base familiar. A reclamação da delegada, mais tarde também citada pelo promotor Paulo Charqueiro, foi a falta do Conselho Municipal de Entorpecentes.
Representando a Secretaria Municipal da Saúde, a assistente social Raquel Gehrke, disse que a porta de entrada dos usuários é o Sistema Único de Saúde (SUS), em especial nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). É lá que se sabe a origem de tudo. Os profissionais conhecem a realidade de cada um, a família, os problemas e é lá que começa o encaminhamento, disse. Raquel citou que existem atualmente em Pelotas 76 Caps, embora faltem recursos humanos e financeiros para que o trabalho seja completo. Também existem as equipes que atuam diretamente no ponto, com os drogados (trabalho denominado Equipe de Riscos e Danos), e conhecem a realidade deles. Mesmo assim se empenham para fazer um bom trabalho.
A falta de recursos humanos e financeiros toi apontada pelo promotor Charqueiro como outro problema que dificulta a recuperação dos drogados. Não vamos fazer política de atendimento sem dinheiro. É impossível, afirmou ao manifestar que o crack está onde o Estado não está. Ele ainda criticou o fato de apenas um hospital na cidade aceitar drogados, o Espírita, e que o problema não pode ficar apenas nas mãos do município. O Estado e a União precisam se envolver com mais efetividade. Sem a integração de todas as entidades do poder público não sairemos desse buraco, apontou Charqueiro.
O capitão Rodrigo Bastos Alves, da Brigada Militar, falou do trabalho ostensivo realizado pelo corporação, mas destacou que não adianta prender o drogado, encaminhar para os órgãos que deveriam dar o devido acompanhamento, mas falta a etapa principal, a terceira, que é o tratamento. Um mês depois da desintoxicação, a gente volta a encontrar o drogado na rua e isso não basta, frisou.
O diretor do Hospital Espírita de Pelotas, Felipe Ustarroz, apresentou slides com detalhes da atual situação da única unidade a receber os drogados e apontou os pontos principais que desde a infância permanecem no indivíduo e o fazem entrar no mundo das drogas. Segundo ele, a primeira etapa do tratamento não é a mais fácil, a da desintoxicação, mas só ela não é suficiente. A mais complicada é a segunda, por ser a mais importante. É nela que se trabalha a prevenção às recaídas, a mudança do posicionamento do drogado e há necessidade do suporte familiar.
De acordo com o diretor, é na segunda etapa que os drogados acabam desistindo e 28% sempre é reinternado. Para que a recuperação seja total é preciso que ele queira se tratar e esse é o ponto mais difícil. Tratar do comportamento humano é complicado porque depende de o paciente querer, comentou. No final foi aberta discussão com representantes da comunidade que participaram do evento.
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